No início 1996 iniciei minha carreira de professora numa escola da rede privada, o Instituto de Preparação Educacional.
Minha primeira turma era formada por meninas e meninos encantadores. Todos os estudantes daquela 4ª série sabiam ler. Eram alegres, participativos, solidários e amáveis. Não tive problema nenhum com essa turma. É estranho revisitar essa página, pois com a experiência que tenho hoje, vejo que poderia ter feito mais. Por outro lado, o script daquela turma já estava feito e eu, no início da carreira, só tinha que seguir. Faltava-me, entre tantas coisas, consciência de ser.
Aquela escola era muito tradicional e funcionava de acordo com o pensamento educacional da sua gestora e dona. Lá, nunca soube o que era reunião pedagógica no seu sentido dialógico. Naquela época eu era apenas uma transmissora de conteúdos. Naquele tempo, eu concebia a alfabetização apenas como ensinar a ler. Letramento era uma palavra que não havia no meu vocabulário. Questionar era uma palavra desconhecida na minha prática. Eu ainda, demoraria alguns anos para descobrir que educação não é passividade, mas um ato de liberdade consciente. Passei 5 anos nessa escola e apesar das contradições reinantes, tenho também boas memórias de momentos vivenciados ali. Aprendi, descobri e construí memórias e amizades que guardo no meu coração.
Mas foi numa outra escola privada que dei os meus primeiros passos na alfabetização. Cometi vários erros, contudo, foi no Instituto Novas Ideias que tive o incentivo, o crédito e a ajuda de uma professora alfabetizadora extraordinária: dona Lidinei Araújo. Essa educadora, gestora e proprietária da escola, serva de Deus, apostou em mim, deu-me os recursos e as orientações necessárias. Assim, fui conquistada pelo processo de alfabetização. Tenho guardadas no meu coração lembranças muito boas vividas naquele espaço.
Após quase 5 anos, precisamente em 2004, fui convocada pra trabalhar na rede pública. Em 2005, já estava trabalhando apenas na rede municipal da Prefeitura da Cidade do Recife. Entretanto, levou mais de 5 anos para que eu voltasse às series iniciais, ao Ciclo de Alfabetização.
Ao surgir a oportunidade de voltar ao 1º ano, não hesitei. Lembro que por volta de 2009/2010 eu já participava do Projeto Professor Alfabetizador. Amei esse projeto porque, através dele e das formações proporcionadas, tive oportunidade de trabalhar com crianças com dificuldades de aprendizagem de outras escolas. Não era fácil atender duas escolas e participar das formações toda sexta-feira, mas era prazeroso ver a esperança de aprender a ler nos olhos de uma criança se tornar real.
Muitas experiências obtive e desde 2015 venho lecionando apenas no ciclo de alfabetização das séries iniciais, as vezes no primeiro ano, outras vezes no segundo.
Nessa jornada há momentos angustiantes, onde a gente planeja, pesquisa, faz... e parece que nada acontece. Contudo, há momentos mágicos como aquele em que você descobre que uma criança superou as dificuldades detectadas e apropriou-se do Sistema de Escrita Alfabética. Vale apena ver uma criança, com deficiências físicas ou mesmo intelectuais, lendo. Vale muito apena ver um estudante descobrindo a função da escrita e escrevendo um bilhete, uma carta, um cartão para seus pares e para professora também. Há alegria e esperança em registrar pequenas/grandes vitórias daqueles estudantes que apresentam algum tipo de dificuldade de aprendizagem ou outras limitações.
Durante esse processo de aquisição da leitura e da escrita descobri que, mais uma vez, o Professor Paulo Freire tinha razão, pois “Educar exige disponibilidade para o diálogo.” Aprendi que se meu aluno escreve ou recebe uma carta “desaforada” de um colega, eu não devo me escandalizar. Nada de castigar. O momento exige diálogo, reflexão e ações conscientes (chamada com amor) que contribuam para o crescimento dos educandos. É muito significativo ver uma criança lendo o que escreveu ou recebeu e, nessa ação, descobrindo os erros de escrita, questionando a letra usada ou mesmo a letra ausente. Compreendendo o sentido das palavras.
Trabalhando com esses pequenos, aprendi que este é um momento de aprendizado mútuo. Nas minhas reflexões, descobri que, no processo de alfabetização, nem sempre terei êxito com determinada criança. Por diversos fatores, algumas delas demoram a ler e, consequentemente, a escrever. Mas, enquanto professora, busco alternativas que possam ajudá-la . Por exemplo, já observei que determinada história, numa roda de leitura, abre um horizonte de possibilidades que ajudam as crianças e assim o trabalho tem continuidade.
Nesses anos, como professora alfabetizadora, tenho descoberto que os desafios existem e são muitos (crianças sem limites, famílias ausentes, doenças, deficiências, falta de coordenador na escola, pais incompreensivos, professores sobrecarregados e desmotivados...), mas é nosso papel continuar dialogando, buscando, acreditando... Planejar as ações e sempre questionar o próprio planejamento é fundamental. Acreditar e não ter vergonha de recomeçar, compartilhar vitórias e conversar sobre os fracassos, tem me feito continuar na árdua e gratificante tarefa de alfabetizar letrando, de alfabetizar sonhando, de alfabetizar lutando e amando.
Relatos e reflexões enriquecendo a comunhão com Deus e o próximo.
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sexta-feira, 29 de maio de 2020
Minha experiência como professora alfabetizadora
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